Modelo de Arquitetura para Gestão da Preservação Digital

Modelo AGPD: Framework para Preservação Digital

O Modelo de Arquitetura para Gestão da Preservação Digital (Modelo AGPD) é um framework, isto é, um sistema estrutural desenvolvido para auxiliar na Gestão da Preservação Digital de Repositórios Institucionais. Sua fundamentação baseia-se no sistema de preservação digital distribuída LOCKSS (Lots of Copies Keep Staff Safe), operando em conformidade com as normas:

  • ISO 14721: Estabelece o Modelo de Referência OAIS (Open Archival Information System).
  • ISO 16363: Define as práticas para a auditoria e certificação da confiabilidade de repositórios digitais.

O objetivo central do Modelo AGPD é servir como uma ferramenta orientadora para que instituições de memória estruturem a documentação e as políticas de gestão da preservação digital de seus repositórios de forma consistente e auditável.

Superando a Vulnerabilidade Sistêmica

Embora os esforços para garantir a longevidade digital tenham se intensificado nas últimas duas décadas (2000-2024), a pesquisa desenvolvida pela Rede Cariniana/Ibict identificou uma lacuna crítica: a ausência de um framework que sistematizasse as diretrizes para o ecossistema de gestão em longo prazo.

Essa deficiência foi apontada como um dos principais fatores de vulnerabilidade em diversos projetos brasileiros ao longo dos anos. A aplicação do Modelo mitiga esses riscos ao oferecer um gerenciamento estruturado de boas práticas, garantindo a integridade, o acesso e a longevidade dos acervos digitais salvaguardados.

Inovação e Evolução Contínua

Mais do que uma resposta técnica à situação crítica de risco no cenário brasileiro, o Modelo AGPD consolida-se em 2026 como a principal inovação tecnológica para a preservação digital no país. 

Após o lançamento da versão beta em 2024, que estabeleceu o framework fundamental para a área, o modelo atinge sua maturidade plena em uma versão atualizada que incorpora a experiência prática adquirida em consultorias realizadas entre 2025 e 2026.

Esta nova iteração é o resultado direto do diálogo com a comunidade técnica e do acompanhamento rigoroso dos avanços normativos internacionais mais recentes. Ao transformar exigências complexas em diretrizes aplicáveis, o Modelo AGPD posiciona-se na vanguarda das práticas nacionais, oferecendo uma solução consistente e de alta confiabilidade que pode ser adotada em qualquer etapa do desenvolvimento de programas de preservação digital de repositórios de instituições brasileiras.

O compromisso com a excelência e com a soberania da memória digital é sustentado por um ecossistema de suporte ativo:

  • Capacitações de Alto Nível: Programas especializados para a formação de lideranças e especialistas técnicos, com foco na realidade nacional.
  • Auditorias de Conformidade: Verificação rigorosa da aplicação de boas práticas e requisitos normativos (ISO), garantindo que o repositório seja auditável.
  • Certificação e Reconhecimento: Selos de maturidade que atestam a autoridade técnica e a segurança das instituições que adotam o referencial do Modelo AGPD.

Arquitetura do Framework

O Framework compreende a arquitetura como uma ordem sistêmica abstrata que define os limites e as interações do ecossistema de preservação. Esta visão é inspirada na premissa clássica de Marcus Vitruvius Pollio, de que a ordem confere a medida devida às partes em relação ao todo  (MORGAN, 1914) e na definição contemporânea de arquitetura distribuída como a “arte de estabelecer a ordem” (LISBOA, 2021).

Para garantir escalabilidade e controle de qualidade, o modelo é estruturado na seguinte hierarquia:

  • Arquitetura: A ordem sistêmica que governa a interoperabilidade e a integridade do repositório.
  • Dimensões: Áreas críticas de gestão (Organizacional, Legal, Técnica, Tecnológica e de Gestão de Risco) que organizam a infraestrutura.
  • Infraestrutura: Conjunto de elementos estruturais que servem de suporte para os atributos de preservação.
  • Atributos: Diretrizes Orientadoras, requisitos funcionais e qualitativos que tornam a preservação mensurável e auditável.

Isto posto, o desenho dimensional do Modelo AGPD constitui um conjunto de esferas sistêmicas que fundamentam a preservação em repositórios de instituições brasileiras. Esta arquitetura delimita um ecossistema de alta confiabilidade, estabelecendo diretrizes essenciais para garantir a integridade e a longevidade de objetos digitais.

A validade dessas estruturas foi consolidada a partir de um estudo exaustivo das políticas de preservação de mais de 600 repositórios globais vinculados à rede LOCKSS (Lots of Copies Keep Staff Safe), assegurando que o modelo esteja perfeitamente alinhado às melhores práticas internacionais.

 O Framework organiza-se em seis dimensões que operam de maneira integrada e interdependente:

1. Dimensão Organizacional: Coordena o arranjo das práticas gestoras e a ordenação das atividades institucionais. É a dimensão que estabelece a base administrativa e estratégica necessária para a interação harmônica entre as demais dimensões.

Infraestrutura:
1.1 Governança
1.2 Desenvolvimento de Coleções Digitais;
1.3 Planejamento Estratégico;
1.4 Ciclo de Revisão;
1.5 Glossário;
1.6 Referências

2. Dimensão Normativa: Estabelece o alicerce de conformidade técnica e administrativa do modelo. Reúne as normas internacionais indispensáveis para a preservação de longo prazo e para a auditoria de repositórios digitais confiáveis.

Infraestrutura: Composta por um rigoroso conjunto de normas internacionais, com destaque para as séries:

2.1 ISO 14721 (Modelo OAIS)
2.2 ISO 16363 (Auditoria e Confiabilidade)
2.3
ISO 30300/30301 (Gestão de Documentos)
2.4
ISO 15489 (Informação e documentações – Gestão de registros)
2.5
ISO/IEC 27000 (família, especialmente a ISO/IEC 27001, padrão global para a Gestão de Segurança da Informação – SGSI)
2.6 ISO 37301 (Sistemas de gestão de compliance)
2.7 ISO 37000 (Governança das Organizações – Orientações)
2.8 ISO 9001 (Sistema de Gestão da Qualidade – SGQ)

3. Dimensão Legal: Envolve as questões jurídicas e a segurança da informação sob a responsabilidade do repositório. Embora vinculada às legislações nacionais, esta dimensão é balizada pelos requisitos de auditoria da ISO 16363, exigindo evidências documentais sobre a legitimidade da custódia e dos direitos de preservação.

Infraestrutura:

3.1 Acesso e Uso: Definição de políticas alinhadas ao mandato institucional e às necessidades da comunidade usuária.
3.2
Direitos Autorais: Gestão de contratos e termos que assegurem o direito legal para ações de preservação (migração e cópia).
3.3
Gestão de Permissões: Controle auditável de restrições, assegurando a proveniência legal do acervo.

4. Dimensão Técnica: Descreve a práxis das ações necessárias para assegurar que o material digital permaneça acessível e inteligível ao longo do tempo, independentemente das inevitáveis rupturas tecnológicas.

Infraestrutura:

4.1 Digitalização
4.2 Armazenamento
4.3 Gerenciamento de Objetos Digitais.

5. Dimensão Tecnológica: Refere-se à infraestrutura computacional (lógica e física) que sustenta o sistema, abrangendo os requisitos técnicos vitais para a operação contínua e segura do repositório.

Infraestrutura:

5.1 Requisitos de Software (Ferramentas e Aplicações)
5.2 Especificações de Hardware

6. Dimensão de Gestão de Risco: Abrange as práticas voltadas à identificação, gerenciamento e mitigação de ameaças que possam comprometer a estrutura do repositório. É a dimensão que assegura a resiliência institucional e a validade sistêmica dos processos.

Infraestrutura:

6.1 Mensuração
6.2 Análise
6.3 Avaliação
6.4 Planos de Contingência
6.5 Certificação

Referências:
MORGAN, Morris Hicky. Vitrúvio, os dez livros de arquitetura. Humphrey Milford Oxford University, 1914.

LISBOA, Flávio. Arquitetura de software distribuído: Boas práticas para um mundo de microsserviços. Casa do Código, 2021.

Dimensões do Framework

Os grupos de estudo reúnem pesquisadores e profissionais para aprofundar temas específicos dentro das áreas da preservação digital. Diferente das linhas de pesquisa, que têm caráter mais estrutural e acadêmico, os grupos são mais dinâmicos e interativos, permitindo a formação de novas iniciativas conforme demandas emergentes.

Os seis grupos de estudo são:

Dimensão Organizacional

A Dimensão Organizacional trata dos aspectos referentes ao arranjo das práticas gestoras e à ordenação de como cada atividade deve ser administrada. Ela funciona de maneira sistêmica, interagindo com as demais esferas para garantir que a gestão do Repositório Digital Institucional (RDI) seja auditável, resiliente e transparente.

Esta dimensão é composta pelas seguintes infraestruturas e seus respectivos referenciais:

1. Governança: Abrange todo o processo de decisão do projeto de preservação e suas regras de sustentabilidade. Deve explicitar a missão de preservação, descrevendo o organograma (corpo gestor, técnico e operacional), funções, responsabilidades e a constituição de comitês ou forças-tarefa.

Normalização:

  • ISO 37000 (Governança organizacional)
  • ISO 37301 (Gestão de compliance)
  • ISO 30300/30301 (Sistemas de gestão de documentos de arquivo)

 

Estruturas:

Infraestrutura Atributos

 

2. Desenvolvimento de Coleções Digitais: Determina o início do ciclo de vida das coleções, estabelecendo quais conjuntos memoriais serão submetidos à preservação de longo prazo, além de definir os limites e o escopo do acervo.

Normalização:

  • ISO 14721 (Modelo OAIS – Responsabilidades perante a Comunidade Designada)
  • ISO 20652 (Interface de transferência produtor-arquivo)
  • ISO/TR 13028 (Diretrizes para implementação de digitalização)

Estruturas:

Infraestrutura Atributos

 

3. Planejamento Estratégico: Conjunto de esquemas técnicos, financeiros e conceituais que orientam a trajetória do RDI. Preza pela construção de uma estratégia sólida baseada na realidade profissional do ambiente, avaliando caminhos futuros e tendências para garantir a viabilidade institucional.

Normalização:

  • ISO 16363 (Sustentabilidade financeira e planos de sucessão)
  • ISO/TR 18492 (Estratégias para preservação de longo prazo)
  • ISO 18128 (Avaliação de riscos para sistemas de gestão de documentos)

Estruturas:

Infraestrutura Atributos

 

4. Ciclo de Revisão: Diretamente ligada à manutenção e à garantia de longevidade digital. Esta infraestrutura delimita a duração de cada período do projeto e assegura a melhoria contínua dos processos frente às mudanças tecnológicas.

Normalização:

  • ISO 30302 (Guias para implementação e revisão)
  • ISO 15489 (Conceitos e princípios de gestão de documentos)
  • ISO/IEC 17021 (Requisitos para auditoria de sistemas de gestão)

Estruturas:

Infraestrutura Atributos

 

5. Glossário: Implementa uma base terminológica comum que auxilia no entendimento de termos específicos. Possibilita que os atores do repositório mantenham interoperabilidade semântica e dialoguem com precisão técnica com outras instituições nacionais e internacionais.

Normalização:

  • ISO TC 46/SC 11 (Padronização internacional de vocabulário para arquivos)
  • ISO 23081 (Metadados para gestão de documentos e terminologia padronizada)

Estruturas:

Infraestrutura Atributos

 

6. Referências: Esta infraestrutura é responsável por estabelecer o conjunto de normas técnicas que orientam a produção, a apresentação e a citação de documentos, relatórios técnicos e acadêmicos gerados no âmbito do repositório. Ela garante a uniformidade e a autoridade científica da documentação institucional (NBR 10719: Apresentação de relatórios técnicos e/ou científicos; NBR 10520: Elaboração de citações em documentos; NBR 6023: Elaboração de referências bibliográficas; NBR 6024: Numeração progressiva das seções de um documento; NBR 14724: Informação e documentação para trabalhos acadêmicos (conforme aplicável ao acervo)).

Dimensão Normativa

A Dimensão Normativa é fundamentada em um arcabouço de Normas Internacionais (ISO) que garantem a interoperabilidade, a autenticidade e a resiliência dos repositórios de instituições brasileiras.

Abaixo, estão detalhadas as especificações técnicas e metodológicas que sustentam este framework.

1. O Pilar Central: Modelo OAIS (ISO 14721)

A ISO 14721 define o modelo de referência para um Sistema Aberto de Informação Arquivística (OAIS). Mais do que um padrão técnico, o OAIS estabelece a responsabilidade organizacional de preservar informações para uma Comunidade Designada.

  • Conceito de “Aberto”: No contexto do AGPD, o termo implica que a norma e seus desdobramentos são desenvolvidos em fóruns colaborativos, garantindo que o modelo acompanhe a evolução tecnológica.
  • Funcionalidade: Fornece a estrutura terminológica para comparar arquiteturas de arquivos, estratégias de preservação de longo prazo e modelos de dados, permitindo que organizações não arquivísticas participem ativamente do processo de preservação.
  • Evolução: A atualização de 2012 trouxe clareza sobre autenticidade e introduziu a Propriedade de Informação Transformacional, essencial para a gestão de mudanças de suporte e formato ao longo do tempo.

2. Interação e Ingestão (ISO 20652 e ISO 20104)

A preservação começa antes mesmo do dado entrar no repositório. O Framework utiliza:

  • ISO 20652: Estabelece a metodologia de interface entre o Produtor de Informações e o arquivo, definindo desde o contato inicial até a validação dos objetos.
  • ISO 20104: Padroniza a criação dos Pacotes de Informações de Envio (SIPs), garantindo que a transferência de objetos digitais ocorra de forma estruturada e eficiente.

3. Gestão de Registros e Sistemas de Gestão (Série ISO 30300 e ISO 15489)

A governança documental é assegurada pela integração dos Sistemas de Gestão de Registros (MSR):

  • ISO 15489: Define os princípios para criação, captura e gerenciamento de registros como evidência oficial de negócios.
  • ISO 30300/30301/30302 (Série): Fornece os requisitos para que a alta administração implemente políticas de registros que apoiem a estratégia e o mandato institucional, permitindo a medição e o monitoramento do desempenho.

4. Segurança e Integridade da Informação (Família ISO/IEC 27000)

Como inovação tecnológica, o Framework incorpora a ISO/IEC 27001. Este padrão internacional para Gestão de Segurança da Informação (SGSI) garante que a preservação digital não seja apenas duradoura, mas protegida contra ameaças cibernéticas, assegurando a confidencialidade e a disponibilidade dos ativos.

5. Formatos de Preservação e Digitalização (ISO 19005, ISO 28500 e ISO 13028)

Para mitigar a obsolescência tecnológica, o modelo prescreve:

  • ISO 19005 (Série PDF/A): O uso do PDF/A (versões 1.7 e 2.0) para preservar a representação visual estática de documentos ao longo de gerações de tecnologia.
  • ISO 28500 (WARC): A norma para estruturar e armazenar recursos coletados da web, permitindo a gestão de bilhões de objetos com integridade.
  • ISO/TR 13028: Diretrizes para garantir que registros digitalizados mantenham a mesma confiabilidade e valor de prova dos originais físicos.

6. Auditoria, Risco e Certificação (ISO 16363 e ISO 16919)

O estágio final da maturidade no Modelo AGPD é a auditabilidade:

  • ISO 16363: Define as práticas recomendadas para avaliar a confiabilidade dos repositórios digitais.
  • ISO 16919: Estabelece os requisitos para os organismos que realizam a certificação desses repositórios, garantindo que o processo de auditoria seja, ele próprio, fidedigno e competente.

Glossário Técnico de Apoio

Para auxiliar na compreensão da Dimensão Normativa, o modelo adota as siglas internacionais de referência:

  • CCSDS: Comitê Consultivo para Sistemas de Dados Espaciais (criadores do OAIS).
  • MSR: Sistema de Gestão de Registros.
  • PAIMAS: Metodologia de Interface Produtor-Arquivo.
  • SIP: Pacote de Informação de Envio.
  • WARC: Formato de arquivamento para conteúdos da Web.
Dimensão Legal

A Dimensão Legal envolve as questões jurídicas e a segurança da informação sob a responsabilidade institucional do repositório. Pautada na conduta de acesso, direitos e deveres, esta esfera garante que o conteúdo preservado esteja resguardado por acordos de licenciamento, leis de direitos autorais e políticas de conformidade.

Esta dimensão é balizada pelos requisitos de auditoria da ISO 16363, que exige que o repositório demonstre transparência e controle absoluto sobre o que pode ser acessado e sob quais condições.

1. Acesso e Uso

Refere-se à política que define “o que” e “como” o conteúdo pode ser acessado, abrangendo desde a autenticação do usuário até a entrega do Pacote de Informação de Divulgação (DIP).

  • Fundamentação ISO 16363: A norma define que o acesso está intrinsecamente ligado à segurança física e à autenticação. O repositório deve gerenciar todas as fases: o pedido, a verificação dos direitos do requerente e a preparação do pacote de entrega.

  • Conformidade Normativa: Segundo a ISO 16363, o repositório deve registrar e revisar todas as falhas e anomalias de gerenciamento de acesso. Isso garante que o sistema cumpra rigorosamente as políticas estabelecidas e que qualquer tentativa de acesso indevido seja auditável.

  • Direitos e Deveres: Definição clara das responsabilidades do usuário ao interagir com o acervo, assegurando que o uso do material respeite os limites éticos e legais da instituição.

2. Direitos Autorais e Licenciamento

É o alicerce que garante a legitimidade das ações de preservação (como migração e cópia). O acesso e o uso devem estar sempre em conformidade com a legislação de direitos autorais vigente.

  • Acordos de Custódia: O repositório deve manter evidências de acordos com criadores, doadores e provedores de conteúdo. A ISO 16363 exige que o repositório tenha o direito legal de exercer as estratégias de preservação. Sem contratos ou termos de cessão que permitam a manipulação técnica, a preservação torna-se juridicamente frágil.

  • Segurança Jurídica: Garantia de que a instituição possui os direitos necessários para realizar a custódia e manipular tecnicamente o objeto digital visando sua longevidade, documentando a proveniência legal de cada item.

3. Gestão de Permissões e Níveis de Acesso

Para uma gestão eficaz, o Modelo AGPD estabelece níveis de acesso diferenciados, permitindo que o repositório proteja conteúdos sensíveis enquanto promove a abertura de coleções públicas.

Nível de Acesso Descrição Operacional Exemplo de Aplicação
Armazenamento de Arquivo (Dark Repository) Conteúdo não acessível ao público geral por restrições legais ou de segurança. Materiais com restrições de privacidade, segredo industrial ou implicações culturais e indígenas.
Conteúdo de Acesso Aberto Materiais não protegidos por direitos autorais ou com permissão de distribuição não exclusiva. Obras em domínio público ou coleções com licenças abertas (Creative Commons).
Acesso Persistente Conteúdo mantido sob condições específicas de acesso, garantindo a continuidade do uso. Assinaturas de periódicos e acervos acadêmicos com restrições de rede institucional.

Destaques da Gestão Legal no AGPD:

  • Rastreabilidade de Evidências: Mais do que seguir a lei, o repositório deve ser capaz de provar que segue as normas. O registro de permissões deve ser auditável e estar vinculado diretamente ao objeto digital.

  • Mandato Institucional: A Dimensão Legal assegura que o repositório atue dentro de sua missão, respeitando as restrições de acesso dos utilizadores ao sistema e garantindo a segurança física e lógica dos dados.

  • Ponte Normativa: O modelo utiliza a ISO 16363 para estruturar os procedimentos que darão suporte jurídico à Dimensão Técnica, permitindo que a disseminação dos objetos seja rastreável até os originais com evidências que apoiem sua autenticidade.

Dimensão Técnica

A Dimensão Técnica descreve a práxis das ações necessárias para assegurar o acesso contínuo aos materiais digitais. Ela é o braço operacional do Modelo AGPD, focada em converter, armazenar e gerenciar objetos de forma que sua integridade e autenticidade permaneçam inalteradas frente às rupturas tecnológicas.

1. Digitalização

Baseada nas diretrizes do relatório técnico ISO/TR 13028, a digitalização no Modelo AGPD é um processo de conversão técnica que exige rigor metodológico para garantir a fidelidade ao suporte original.

  • Captura e Conversão: Diretrizes para a transição da informação não digital para o suporte digital, assegurando que o representante digital mantenha o valor de prova e a inteligibilidade do registro fonte.
  • Qualidade e Integridade: Orientações sobre resoluções e profundidade de cor (conforme os padrões de preservação) para evitar perdas informacionais. O foco é a criação de um mestre digital fidedigno que dispense a manipulação constante do original físico.

2. Armazenamento

Esta infraestrutura define a arquitetura lógica e física onde os objetos residirão, operando em sintonia com a Dimensão Tecnológica.

  • Sincronia Operacional: Conforme os requisitos de governança, o sucesso do armazenamento depende das relações colaborativas entre as equipes de TI e os profissionais da informação.
  • Persistência de Dados: Estratégias balizadas por redundância e monitoramento constante, garantindo que o dado armazenado hoje seja idêntico e recuperável em décadas, superando a obsolescência de mídias (conforme orientado pela ISO 17797).

3. Gerenciamento de Objetos Digitais

Esta é a infraestrutura que orienta a manutenção e agregação de valor à informação digital ao longo de todo o seu ciclo de vida, sendo o ponto crítico para a auditoria de repositórios.

  • Ciclo de Vida do Objeto (AIP): Segundo a ISO 14721, o repositório deve gerenciar os Pacotes de Informação de Arquivamento (AIPs). A conformidade rigorosa nas ações tomadas sobre os AIPs é o que separa um repositório comum de um repositório auditável.
  • Comunidade Designada e Inteligibilidade: Em estrita conformidade com a ISO 16363, o repositório deve demonstrar que o material preservado permanece compreensível para o seu público-alvo. Isso exige a captura de metadados descritivos mínimos e a manutenção de uma ligação bidirecional entre cada AIP e sua descrição.
  • Rastreabilidade e Autenticidade: O modelo exige que todos os objetos disseminados sejam rastreáveis até os seus originais. Para fins de certificação, o repositório deve registrar e revisar todas as falhas, anomalias e erros nos dados ou nas respostas dos usuários, criando uma trilha de auditoria transparente.
Dimensão Tecnológica

A Dimensão Tecnológica abrange o ecossistema computacional que sustenta o framework. Mais do que a simples posse de recursos, esta dimensão foca na integração entre software, hardware e procedimentos técnicos para garantir que o processo de preservação desde a recepção (SIP), passando pelo armazenamento arquivístico (AIP), até a disseminação (DIP) ocorra de forma íntegra e ininterrupta.

Esta dimensão é estruturada em duas infraestruturas fundamentais:

1. Infraestrutura de Hardware

Representa a base física e o conjunto de aparatos eletrônicos que constituem o complexo de preservação de longo prazo. No Modelo AGPD, o hardware não é visto apenas como armazenamento, mas como um ambiente de alta disponibilidade.

  • Escalabilidade Física: Planejamento de equipamentos que suportem o crescimento do volume de dados e as exigências de processamento ao longo do tempo.
  • Arquitetura de Confiabilidade: Seleção de componentes que minimizem falhas críticas e garantam a integridade física dos bits (conforme as diretrizes de preservação de mídias da ISO 17797).

2. Infraestrutura de Software

Apresenta o panorama tecnológico das aplicações e programas que viabilizam a recuperação, o acesso e a utilização da informação. No framework, o software é tratado como uma camada viva que exige monitoramento constante.

  • Sistemas de Informação (SI): O foco recai sobre softwares que funcionam como sistemas de gestão de repositórios, permitindo a governança técnica do acervo.
  • Gestão de Ciclo de Vida do Software: Para garantir a conformidade normativa, o modelo exige o registro e rastreio de informações críticas:
    • Nome e Versão: Controle rigoroso da versão instalada para prever obsolescência.
    • Histórico de Manutenção: Registros de atualizações e intervenções técnicas.
    • Capacidade de Operação: Programas de treinamento e capacitação técnica para o uso do software.
    • Documentação e Comunidade: Valorização de softwares que possuam documentação e comunidades oficiais de suporte (como as redes de apoio ao DSpace, LOCKSS, Dataverse e/ou similares).

Destaques da Tecnologia no AGPD:

  • Monitoramento Global: O modelo incentiva o uso de diretórios de referência como o OpenDOAR (Directory of Open Access Repositories) e o ROAR (Registry of Open Access Repositories) para o monitoramento de tecnologias e benchmarking de softwares utilizados por repositórios de excelência.
  • Interdependência: O sucesso desta dimensão depende da sintonia com a Dimensão Técnica. Enquanto a técnica define o que fazer com o objeto, a tecnológica fornece as ferramentas de hardware e software para que a ação seja executada com segurança.
  • Segurança Lógica: Alinhada à ISO/IEC 27001, a infraestrutura de software deve prever camadas de segurança que protejam o repositório contra acessos não autorizados e garantam a autenticidade dos registros.
Dimensão da Gestão de Risco

A Dimensão da Gestão de Risco agrega as infraestruturas que dão suporte ao controle e à mitigação de ameaças. No framework, o risco é compreendido como um fator inerente a qualquer atividade humana; portanto, o objetivo não é sua erradicação impossível, mas o delineamento de seus limites por meio de processos contínuos de análise e contingenciamento.

Esta dimensão é o alicerce para a certificação de Repositórios Digitais Confiáveis, estruturando-se em cinco infraestruturas essenciais:

1. Mensuração e Análise

Busca identificar a natureza do risco a partir de fatores que minimizam ou intensificam a probabilidade de danos ao repositório.

  • Quantificação de Ameaças: Proporciona a compreensão dos perigos pertinentes aos Repositórios Institucionais, avaliando o impacto de falhas técnicas, humanas ou ambientais.

2. Avaliação e Mitigação

Procura identificar as possibilidades de instalação do risco e define as providências para mitigar sua ação.

  • Estratégias de Resiliência: Desenvolvimento de dispositivos que garantam a continuidade das operações mesmo diante de eventos adversos.

3. Planos de Contingência

Apresenta um conjunto de procedimentos e normas para manter o funcionamento do repositório em casos de incidentes críticos.

  • Recuperação de Desastres: Protocolos claros para a restauração de dados e serviços, assegurando que a interrupção da preservação seja mínima.

4. Gestão de Alterações e Sincronização

Em estrita conformidade com a ISO 16363, o modelo exige rigor documental sobre qualquer mudança nos processos críticos.

  • Documentação de Mudanças: Identificação de alterações que afetem a capacidade do repositório de cumprir suas responsabilidades obrigatórias.
  • Controle de Cópias: Gerenciamento do número e localização das cópias de todos os objetos digitais, garantindo que as múltiplas cópias (conforme a filosofia LOCKSS) estejam sempre sincronizadas.

5. Atributos da Certificação

A certificação é o estágio final da maturidade. Segundo a ISO 16363, um repositório confiável deve monitorar, planejar e realizar manutenções constantes.

  • Ciclo de Auditoria: O status de “confiável” não é uma conquista única, mas um processo cíclico. O repositório deve realizar auditorias regulares para validar suas estratégias de preservação.

 

Destaques da Gestão de Risco no AGPD:

  • Segurança Baseada em Evidências: A gestão de risco exige que todos os processos de teste e avaliação de mudanças sejam documentados, criando uma trilha de auditoria para organismos certificadores.
  • Cultura de Prevenção: Ao seguir os critérios das demais dimensões (Técnica, Legal, Tecnológica, Normativa e Organizacional), a instituição automaticamente minimiza os riscos sistêmicos.
  • Longevidade Garantida: A sincronização de objetos e o monitoramento proativo são as únicas garantias reais de que o acervo sobreviverá a décadas de transformações tecnológicas.